São tantas as recordações, que com o passar do tempo, transformaram-se em um passado distante e saudoso, com certeza, jamais voltará. Era um lugar de terra batida e avermelhada, de poucas casas e poucos recursos, mas onde sobrava solidariedade e o amor genuíno das pessoas, umas para com as outras.
O tempo, implacável, trouxe consigo problemas, dificuldades, separações, a mudança de cidade, a perda de amigos... e a saudade. Uma saudade que jamais me abandonou, transformando-me em um prisioneiro daquele tempo que hoje faço questão de retratar em minhas escritas como se fosse um ciclorama teatral. Contudo, foi somente depois que ingressei no teatro que tudo isso se tornou possível. Um universo lindo e maravilhoso, onde soube aproveitar cada minuto de trabalho, suor e lágrimas, pois nada, nada mesmo me foi dado de mão beijada. Meu diretor... meu querido diretor, Wanderley Galvão, que hoje faço questão de nomear, era um homem por quem poucos dariam muito, mas que, em minha opinião, foi e ainda é um dos melhores diretores de teatro do Rio de Janeiro. Ele foi capaz de pegar garotos do subúrbio e transformá-los em grandes talentos, respeitando o tempo e o espaço de cada um. Era um diretor de pulso firme, sim, mas determinado a moldar cada um de nós, e extrair o verdadeiro talento que cada um possuía e desconhecia. Ele nunca elogiava nossos trabalhos, argu-mentando que o elogio atrapalhava na busca pela excelência e trazia acomodação.
Hoje, em parte, isso faz todo o sentido para mim, e me leva a pensar e reconhecer o quão talentoso ele foi. Chorávamos, levados à exaustão na busca pela perfeição de uma personagem. Nosso psicológico era trabalhado, talhado e lapidado ao extremo. Quando o resultado vinha, quando o aplauso irrompia, ainda no palco, nossos olhares se voltavam para a técnica que ficava posicionada à frente do palco e atrás do público, onde ele ficava cuidando da sonoplastia. Buscávamos uma aprovação, mas sempre permanecia sério. Sabíamos que, no fundo, apreciava o trabalho e o resultado final... mas esperar um elogio dele era pedir demais. Sua máxima era: "Podia ter sido melhor".
Muitos não seguiram a carreira de ator ou atriz, mas todos, de alguma forma, com certeza, seguiram a carreira artística. Eu, por um tempo, trilhei ambos os caminhos, até que minha mente começou a processar minhas emoções. Cada personagem que criava, invariavelmente, carregava um pouco de minhas lembranças de infância, o que enriquecia imensamente minhas interpretações. Éramos tão felizes e não sabíamos. Tínhamos um espaço, um palco italiano, tudo ali à nossa disposição.
Mas, como nada é para sempre, veio o ano de mil novecentos e noventa e nove e o final de um grande sonho. Pertencíamos à Cia. de Teatro SESC Meriti, e a verba para o ano seguinte não seria aplicada na área do teatro, devido a cortes e ajustes. E assim, cada fomento de arte se viu sem rumo e, pela primeira vez, ficamos sem um pai que nos dirigia e nos conduzia na estrada cultural.
Estávamos sós e à mercê de outros caminhos, outros horizontes e outros diretores. Era nossa primeira prova de fogo, para sabermos se estávamos realmente preparados para enfrentar os obstáculos da vida e encarar os lobos que o meio artístico sempre reservava.
Era um lugar onde ninguém seria amigo de nin-guém, onde a possibilidade de um passar a rasteira no outro para conseguir um determinado personagem era uma realidade constante. No início, tivemos medo. Fizemos vários testes e mantínhamos contato constante uns com os outros. Mas, com o passar do tempo, a distância nos alcançou e nos separou. Contudo, essa mesma distância uniu um grupo que até hoje se faz presente, um grupo que se tornou amigos e irmãos. São pessoas que tenho orgulho de dizer que tiveram uma influência muito forte na minha formação artística. Não estamos sempre juntos, mas estamos sempre presentes um na vida do outro.
Assim foi o teatro em minha vida: revelou-me pessoas maravilhosas e talentos em mim que eu mesmo não sabia ou sequer conhecia. Diante de tantos acontecimentos, brotou em mim a necessidade de registrar tudo em papel, e assim surgiu o que me tornei hoje:
"O escritor", Guilherme Jaber.
O que me deixa super feliz é que, mesmo com cada um tomando caminhos diferentes, a arte e a cultura não foram abandonadas. Pelo contrário, nos tornamos mais humanos e mais preparados para a vida, e isso se reflete hoje em cada um de nós. Nossos encontros anuais, que fazemos para avaliar o que cada um fez ou deixou de fazer, são momentos de matar a saudade e, claro, de reviver os velhos tempos. É o que digo: O tempo é cruel com aqueles que não têm do que se lembrar, que não têm recordações. Posso não ter tido a infância mais fácil, mas vivi o melhor da minha vida. Com certeza, o que passou, passou e não voltará mais. Resta-me, então, escrever tudo isso de forma agradável e deixar para a posteridade, para dizer a quem ler que vale a pena viver, que vale a pena construir amizades verdadeiras. Eu escrevo livros, mas, na vida, eu escrevi minha história e ainda a escrevo a cada dia. Por isso, procuro sempre escrever de forma leve, porque quando eu partir, tenho certeza que dirão: "Foi um bom homem, Grande amigo. Amigo que fará falta."

Guilherme Jaber é Ator, Escritor. Nascido em Minas Gerais, na pequena cidade de Patrocínio, que pertence a mesorregião do Triângulo Mineiro - Alto Paranaíba - de onde saiu pequeno para a grande metrópole do Rio de Janeiro.
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